Para todos os que…

como eu, fazem parte do “clube da aspirina”:

Uma Simples Gripe

 

Pachos na testa, terço na mão,
uma botija, chá de limão
Zaragatoas, vinho com mel,
três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chama a mulher :
Ai Lurdes Lurdes que vou morrer !
Mede-me a febre, vê-me a goela,
cala os miúdos, fecha a janela.
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada !
Se tu sonhasses como me sinto,
já vejo a morte nunca te minto.
já vejo o inferno, chamas, diabos,
anjos estranhos, cornos e rabos
Vejo demónios nas suas danças
tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira
Compõe-me a colcha, fala ao prior,
pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada !
Faz-me tisanas e pão de ló,
não te levantes que fico só
Aqui sózinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer !

 

António Lobo Antunes